19 fevereiro 2025

20 ANOS DESDE QUE A MINHA VIDA MUDOU

        Faz hoje 20 anos que a minha vida mudou para sempre de forma irreversível. Faz hoje 20 anos que a minha mãe partiu deste mundo. Que morreu de cancro.
Curiosamente, um cancro que mesmo após mais de uma década de trabalho no IPO de Lisboa nunca tive contacto com um único caso que fosse semelhante ao dela. Nem um único em milhares de doentes que tratei. Teve de ser um cancro raro a levar uma mulher rara e única. É assim que encaro a doença que me tirou a minha mãe.
Como vocês já devem ter reparado, não sou de me vitimizar nem de partilhar a dor que me assola desde que perdi a minha mãe quando eu tinha apenas 14 anos. Não tenho problemas em falar sobre esse episódio se surgir nalguma conversa, mas não sou de partilhar nada sobre este assunto por minha iniciativa. No entanto, era impossível não fazer uma referência a esta marca dos 20 anos desde a sua morte.
20 anos, caramba.
Há 20 anos vivi o período mais negro da minha vida, e logo numa fase tão decisiva e que precisamos tanto dos nossos pais. Foi um ponto de viragem de tal forma profundo que tudo o que sou ou alcancei hoje tem origem nesse dia: 19 de fevereiro de 2005. A minha mulher, a existência do Henrique, a escolha de Radioterapia como área profissional a seguir, a minha vontade de trabalhar no IPO de Lisboa em específico, a descoberta da escrita, certas competições de natação e tantas outras coisas tiveram como ponto de origem aquele momento. Aquele momento em que tive de aprender a viver sem mãe, que tive de aprender a aceitar que mais nenhum dia da mãe seria celebrado, mais nenhum aniversário dela seria feliz e que tantas outras datas e momentos nunca mais seriam vividos da mesma forma. O dia a partir do qual ter o contacto «Mãe» no telemóvel deixaria de fazer sentido e o dia a partir do qual passaria a desviar o olhar para o lado e a remeter-me ao silêncio quando os meus amigos falassem de mães.
Agora que sou pai começo a compreender a dor que terá sido para o meu pai ter de ultrapassar a morte da mulher da vida dele, tendo também dois filhos adolescentes para cuidar e guiar. Começo a aproximar-se dessa idade e cada vez mais penso nisso. Imagino a dor que ele terá sentido, e que ainda sente, e em como lidaria eu com uma situação dessas. Isso só me faz admirá-lo ainda mais. Espero não passar por nada disso, porque já passei como adolescente e como filho e foi horrível. Para mim é mais do que suficiente. Consegui ultrapassar a morte dela com a ajuda da natação e da escrita, mas não sei o que faria se passasse por algo parecido agora.
Dizem que o tempo cura tudo, mas isso é a maior mentira dita e repetida para que as pessoas que nunca passaram por nada de semelhante tenham algo a dizer e que não pareça tão oco como o «vai ficar tudo bem», ou «ela está num lugar melhor agora» e semelhantes. O tempo não cura nada. Não, quando se tratam de dores fraturantes e profundas como esta. O que o tempo faz é amenizar a dor, no sentido em que nos vamos habituando à sua presença como nos habituamos a um cheiro fétido que acabamos por deixar de notar quando nos habituamos a ele. Com este tipo de dor é o mesmo. Começamos a habituar-nos à sua presença, acolhemo-la na nossa vida como algo que temos de carregar todos os dias e, à medida que o tempo passa, criamos habituação e uma certa dormência que nos faz pensar que a dor diminuiu, que passou tudo. Mas é quando menos esperamos que a dor nos arrebate de uma forma que nos faz ver que andávamos apenas anestesiados, mas que ela continua lá, com tanta ou mais força do que no início. É que agora juntam-se as saudades de décadas afastados e a sensação de injustiça por viver tantos e bons momentos sem que ela tivesse a sorte de estar presente para os viver com a alegria e entusiasmo que só ela tinha no que tocava aos seus filhos. O nascimento dos netos, os momentos importantes do crescimento de cada um, os casamentos dos filhos, as graduações da universidade, a minha escrita, as competições de natação e cada conquista pessoal e profissional foram tudo momentos que ela perdeu. Momentos que nunca vivi feliz a cem por cento por faltar o sorriso dela, o carinho dela, o orgulho que ela tinha em ser uma mãe babada. A vida pode ser uma merda.
Neste momento considero-me um homem muito feliz e realizado, com muitos sonhos, mas há sempre uma nuvem negra por cima de mim que me faz recordar dela principalmente nos momentos em que me sinto mais feliz. Não poder partilhar com ela nada do que aconteceu de importante nos últimos 20 anos é uma tortura e algo que me enerva profundamente perante a injustiça da vida. Dizer que perdi a minha mãe há 20 anos, tendo eu ainda 34, é muito triste. Mas a vida continua, não é verdade? E o tempo cura tudo, segundo dizem, portanto estou safo. Só que não.
O que mais lamento acima de tudo é que a minha mulher e o meu filho nunca terão a oportunidade de conhecer a minha mãe. Tenho a certeza de que ela seria uma sogra e uma avó babada e do melhor que se podia pedir nesta vida. Quero acreditar que num universo paralelo ela tenha tido essa sorte e que percebamos que os sortudos éramos nós por a ter connosco.
A verdade é que o tempo não pára e é incrível e estranho ao mesmo tempo que tenham passado 20 anos, quando parece que foi ontem que soubemos da sua morte e que vi o corpo dela sem vida na cama do hospital. Lembro-me como se tivesse sido há umas horas. Mas já passaram vinte anos. E espero cá estar para assinalar muitos mais. De preferência, rodeado de pessoas maravilhosas e com a minha família fantástica como tem sido até agora.
Sou um sortudo pela mulher, filho e cão que me calharam na rifa. Por vezes, olho para a Sara, para o Henrique e para o Joey e penso que a existência deles na minha vida foi a maneira que a vida arranjou para me compensar pela perda que tive no passado. Se assim foi, até que foi muito bem jogado. Se me sinto hoje um homem felizardo, muito se deve a eles. Obrigado por isso, meus amores.