A Árvore Que
Sonhava Com O Natal
No coração de uma
floresta antiga, onde o inverno parecia instalar-se sem pressa de partir,
crescia uma pequena árvore. Era franzina, quase invisível entre os pinheiros
altos e os abetos robustos que lhe roubavam o sol, a chuva e o espaço para
respirar. A neve cobria-lhe as raízes frágeis e o vento gelado era o seu único
visitante constante.
Enquanto as árvores
maiores se erguiam firmes, com copas largas e ramos fortes, a pequena árvore
sentia-se insignificante. Os galhos finos vergavam com facilidade e o tronco
estreito rangia a cada rajada mais forte. Ainda assim, todas as noites, quando
o céu se enchia de estrelas, ela sonhava.
Sonhava com luzes. Com
o Natal.
Sonhava com o calor
dos afetos, com risos à sua volta, com mãos humanas a pendurar enfeites nos
seus ramos. Sonhava ser escolhida, nem que fosse uma vez, para ser a árvore de
Natal. Imaginava como seria ser decorada, sentir o calor das pessoas ao
seu redor, ver os olhos a brilhar de alegria ao olhar para as suas luzes.
«Gostava de
ser como as outras árvores», pensava. «Queria ter galhos fortes, uma copa cheia
e ser coberta de luzes. Talvez assim possa ser útil, fazer alguém sorrir.»
Na floresta, as outras
árvores falavam sobre as que eram levadas para as aldeias e vilarejos, onde
eram cuidadosamente adornadas com bolas, fitas e as belas luzes que brilhavam
como estrelas. Cada vez que ouvia essas histórias, a pequena árvore enchia-se
de esperança… e logo a seguir de uma tristeza funda. Sabia que ninguém a
escolheria. Era pequena demais. Fraca demais. E assim, entre a esperança e a resignação,
o tempo passava.
Na véspera de Natal, a
floresta foi tomada por uma tempestade violenta. O vento, forte e cortante,
varria a neve para todos os lados. A pequena árvore sentiu o peso da neve a
acumular-se nos seus galhos finos, dobrando-os até quase quebrar. Fechou os
olhos e pensou: «Se eu fosse mais forte, esta tempestade não me magoava assim».
Odiava ser como era.
Enquanto a tempestade
rugia, uma família perdia-se na floresta. Avançava às cegas por entre as
árvores. Vinham de longe, carregando um saco com mantimentos simples (pão,
batatas, uma garrafa de vinho barato, uns presentes e um embrulho com doces
feitos em casa). Iam a caminho da casa de familiares para a ceia de Natal, a
única forma de oferecerem aos filhos um pouco de normalidade naquele ano
difícil.
Mas tinham-se perdido.
Ali perto, a pequena
árvore percebeu o que se passava e pediu ao universo uma forma de ajudar
aquelas pessoas. Nem que tivesse de se sacrificar e tornar-se lenha para as
aquecer. A dor que vinha de fora era atroz. Ela queria ser útil. Queria,
finalmente, fazer alguém feliz. E a pequena árvore pediu… e pediu… com o coração
inteiro.
O frio entrava pelos
ossos daquela família. Os filhos choravam baixinho e os pais trocavam olhares
carregados de medo. Não havia abrigo, a comida era pouca e a noite parecia não
ter fim. A mãe tentava manter a calma, mas o cansaço pesava-lhe nos ombros. O
pai, apesar de tentar ser forte, sentia a esperança a fugir-lhe por entre os
dedos. Sabiam que a situação estava a tornar-se grave. Estavam perdidos,
sem alimento e com cada vez menos esperança.
Foi então que viram a
luz.
Um brilho suave, quase
tímido, refletido na neve. Não era forte, nem ofuscante. Era quente.
Convidativo.
— Ali… é um milagre —
murmurou a mãe, apertando a mão do filho.
Guiados por aquela
claridade, seguiram até uma pequena clareira. No centro, rodeada pela neve,
estava a pequena árvore. Parecia brilhar por dentro, como se a lua se tivesse
escondido nela. Era como se tivesse sido escolhida para ser a estrela daquela
noite. Havia algo nela que acolhia. Que protegia.
— Ficamos aqui —
decidiu a mãe, com a voz embargada.
A pequena árvore, de
alguma forma, oferecia uma sensação de segurança e paz que a família não sabia
explicar. E as árvores em redor, mais altas, pareciam levantar-se como um
escudo contra as intempéries do exterior.
Instalaram-se como
puderam. Ao abrirem o saco dos mantimentos, perceberam que havia mais do que se
lembravam de ter trazido. Um pão inteiro. Uma manta dobrada e quente. Um pedaço
de queijo. E outras iguarias simples, como se a noite tivesse decidido ser generosa.
Ninguém disse nada. Limitaram-se a agradecer em silêncio e a deixar-se envolver
pela magia.
A mãe, num gesto
instintivo, começou a enfeitar a árvore. Usou fitas de embrulhos antigos,
lenços vermelhos e flores secas. Colocou a lanterna no topo, como se fosse uma
estrela. Os filhos ajudaram e, em pouco tempo, a pequena árvore estava
diferente, mais alta aos olhos deles, mais viva.
E então, um a um, os
animais aproximaram-se.
Um esquilo trouxe uma
noz. Um pássaro deixou cair uma pena brilhante. Uma raposa largou um fio de lã
colorida. Coelhos, cervos, pequenas criaturas da floresta ofereceram o que
tinham, oferecendo o melhor de si.
A pequena árvore, que
sonhara ser do Natal, tornou-se o Natal.
A família, aquecida
pela união e pelo calor daquela noite, ficou ali a conversar, a rir baixinho, a
esquecer por momentos as dificuldades do mundo lá fora.
A luz natalícia espalhou-se
pela floresta. E não ficou confinada à clareira.
Pessoas das aldeias em
redor começaram a surgir, atraídas pelo brilho de uma forma que não conseguiam
explicar. Vizinhos, viajantes, famílias inteiras apareceram com a sensação de
que era ali que tinham de estar. Trouxeram pão, canções e histórias. Alguns
reconheceram-se. Outros conheceram-se ali e ficaram amigos para a vida.
A família perdida
reencontrou os seus entes queridos. Abraçaram-se sob a árvore, com lágrimas nos
olhos e sorrisos trémulos. Ninguém perguntou como era possível. Naquela noite,
ninguém precisava de explicações. Havia uma compreensão silenciosa dentro do incompreensível.
Partilharam comida.
Partilharam silêncio. Partilharam calor. Partilharam amor.
Os filhos estavam
maravilhados. O menino, com os olhos cheios de encanto, perguntou à mãe se
aquela árvore seria o símbolo do seu Natal.
— A árvore brilha como
as estrelas no céu — disse ele, apontando para a lanterna. — É como se fosse
magia.
A mãe sorriu e
tocou-lhe na testa.
— Talvez seja, meu
querido. Talvez nos esteja a lembrar que a magia do Natal mora nas pequenas
coisas que fazemos uns pelos outros. Podíamos estar numa casa enorme, quente,
mas não estaríamos tão felizes como estamos aqui neste momento, em que fomos
salvos de uma desgraça e podemos comemorar este Natal com alegria e muito amor.
E com a presença de todos. Porque isso é o mais importante. É estarmos
presentes. E é fácil de nos esquecermos disso. Um dia hás de compreender,
filhote.
O menino engoliu em
seco, sério como só as crianças conseguem ser.
— Acho que percebo,
mamã. O importante é estarmos juntos. Presentes.
— Presentes — repetiu
ela, orgulhosa.
A cada gesto de
carinho, a árvore parecia brilhar com mais força. Era como se tivesse
encontrado o seu propósito: ser um farol de luz, de esperança e de união para
quem se sentia perdido, fosse na floresta ou na vida.
Depois vieram as
histórias. O pai, com a voz baixa e acolhedora, contou memórias da infância: a
ansiedade boa de esperar o Natal, a família reunida para decorar a árvore, o
avô a falar de tradições antigas, e a certeza de que cada árvore, grande ou
pequena, tinha uma história única.
Os filhos ouviam
atentos. A mãe, por momentos, deixou-se ficar em silêncio, a pensar que o mundo
podia ser duro, mas o Natal tinha uma forma estranha de empurrar as pessoas de
volta para o que importava. Naquela noite, a magia não estava só nos enfeites
improvisados ou na lanterna a brilhar. Estava no facto de estarem juntos.
Protegidos. Amparados pelo amor.
Os animais também
pareciam sentir a tranquilidade daquele momento. Partilhavam uma harmonia
inesperada, como se a presença serena da árvore tivesse o poder de acalmar
qualquer coração.
A noite passou
devagar. E, quando o sol começou a nascer, tingindo o céu de tons dourados e
rosados, a família preparou-se para seguir caminho. A mãe olhou para a árvore
uma última vez, com o coração apertado.
— É hora de partirmos
— disse, acariciando o tronco com cuidado. — Mas nunca nos esqueceremos de ti.
Antes de partirem,
tirou do bolso uma pequena estrela dourada, encontrada nas arrumações daquela
manhã, e colocou-a no topo.
— Esta estrela é para
ti. Para que nunca percas o teu brilho.
Foram-se embora, e a
árvore ficou. Mas já não voltou a sentir-se pequena, nem triste, nem
insignificante. Agora era a Árvore de Natal. E, todos os anos, os aldeões
voltavam para a visitar: traziam enfeites, cantigas, pão quente, mãos dadas e
amor.
Desde então, no
coração da floresta, existia uma árvore que brilhava nas noites de inverno. Não
com luzes elétricas, mas com algo mais raro. Havia quem dissesse que até
parecia crescer um pouco a cada ano, estendendo os ramos como braços
acolhedores. Os animais continuavam a trazer pequenos presentes e enfeites,
como se soubessem que aquela árvore era agora parte vital da floresta.
E mesmo os viajantes
que se perdiam, guiados pelo brilho suave, falavam da paz que sentiam ao
aproximarem-se dela. A cada história contada, a lenda da árvore crescia. Já não
era apenas uma árvore. Era uma lembrança de que, no meio da solidão, da
tempestade e do frio, existia sempre uma luz, uma esperança. E era essa luz que
unia todos, fosse na floresta, na cidade, ou em qualquer outro lugar.
Quem se perdia naquela
floresta e encontrava a Árvore de Natal encontrava também um pouco de si.
Encontrava rumo. Encontrava lembrança.
Porque aquela árvore
aprendeu o que tantas pessoas levavam uma vida inteira a descobrir, e era isso
que oferecia a quem a visitava:
O verdadeiro espírito
do Natal não estava no tamanho da árvore, no tamanho da casa, nem na quantidade
de prendas, mas na luz que se acendia e transbordava de amor quando alguém
escolhia ficar.
E estar presente.
FIM.
Bruno M. Franco
