19 dezembro 2025

Conto Natal 2025 - A Árvore que Sonhava com o Natal

A Árvore Que Sonhava Com O Natal

 

No coração de uma floresta antiga, onde o inverno parecia instalar-se sem pressa de partir, crescia uma pequena árvore. Era franzina, quase invisível entre os pinheiros altos e os abetos robustos que lhe roubavam o sol, a chuva e o espaço para respirar. A neve cobria-lhe as raízes frágeis e o vento gelado era o seu único visitante constante.
Enquanto as árvores maiores se erguiam firmes, com copas largas e ramos fortes, a pequena árvore sentia-se insignificante. Os galhos finos vergavam com facilidade e o tronco estreito rangia a cada rajada mais forte. Ainda assim, todas as noites, quando o céu se enchia de estrelas, ela sonhava.
Sonhava com luzes. Com o Natal.
Sonhava com o calor dos afetos, com risos à sua volta, com mãos humanas a pendurar enfeites nos seus ramos. Sonhava ser escolhida, nem que fosse uma vez, para ser a árvore de Natal. Imaginava como seria ser decorada, sentir o calor das pessoas ao seu redor, ver os olhos a brilhar de alegria ao olhar para as suas luzes.
«Gostava de ser como as outras árvores», pensava. «Queria ter galhos fortes, uma copa cheia e ser coberta de luzes. Talvez assim possa ser útil, fazer alguém sorrir.»
Na floresta, as outras árvores falavam sobre as que eram levadas para as aldeias e vilarejos, onde eram cuidadosamente adornadas com bolas, fitas e as belas luzes que brilhavam como estrelas. Cada vez que ouvia essas histórias, a pequena árvore enchia-se de esperança… e logo a seguir de uma tristeza funda. Sabia que ninguém a escolheria. Era pequena demais. Fraca demais. E assim, entre a esperança e a resignação, o tempo passava.
Na véspera de Natal, a floresta foi tomada por uma tempestade violenta. O vento, forte e cortante, varria a neve para todos os lados. A pequena árvore sentiu o peso da neve a acumular-se nos seus galhos finos, dobrando-os até quase quebrar. Fechou os olhos e pensou: «Se eu fosse mais forte, esta tempestade não me magoava assim». Odiava ser como era.
Enquanto a tempestade rugia, uma família perdia-se na floresta. Avançava às cegas por entre as árvores. Vinham de longe, carregando um saco com mantimentos simples (pão, batatas, uma garrafa de vinho barato, uns presentes e um embrulho com doces feitos em casa). Iam a caminho da casa de familiares para a ceia de Natal, a única forma de oferecerem aos filhos um pouco de normalidade naquele ano difícil.
Mas tinham-se perdido.
Ali perto, a pequena árvore percebeu o que se passava e pediu ao universo uma forma de ajudar aquelas pessoas. Nem que tivesse de se sacrificar e tornar-se lenha para as aquecer. A dor que vinha de fora era atroz. Ela queria ser útil. Queria, finalmente, fazer alguém feliz. E a pequena árvore pediu… e pediu… com o coração inteiro.
O frio entrava pelos ossos daquela família. Os filhos choravam baixinho e os pais trocavam olhares carregados de medo. Não havia abrigo, a comida era pouca e a noite parecia não ter fim. A mãe tentava manter a calma, mas o cansaço pesava-lhe nos ombros. O pai, apesar de tentar ser forte, sentia a esperança a fugir-lhe por entre os dedos. Sabiam que a situação estava a tornar-se grave. Estavam perdidos, sem alimento e com cada vez menos esperança.
Foi então que viram a luz.
Um brilho suave, quase tímido, refletido na neve. Não era forte, nem ofuscante. Era quente. Convidativo.
— Ali… é um milagre — murmurou a mãe, apertando a mão do filho.
Guiados por aquela claridade, seguiram até uma pequena clareira. No centro, rodeada pela neve, estava a pequena árvore. Parecia brilhar por dentro, como se a lua se tivesse escondido nela. Era como se tivesse sido escolhida para ser a estrela daquela noite. Havia algo nela que acolhia. Que protegia.
— Ficamos aqui — decidiu a mãe, com a voz embargada.
A pequena árvore, de alguma forma, oferecia uma sensação de segurança e paz que a família não sabia explicar. E as árvores em redor, mais altas, pareciam levantar-se como um escudo contra as intempéries do exterior.
Instalaram-se como puderam. Ao abrirem o saco dos mantimentos, perceberam que havia mais do que se lembravam de ter trazido. Um pão inteiro. Uma manta dobrada e quente. Um pedaço de queijo. E outras iguarias simples, como se a noite tivesse decidido ser generosa. Ninguém disse nada. Limitaram-se a agradecer em silêncio e a deixar-se envolver pela magia.
A mãe, num gesto instintivo, começou a enfeitar a árvore. Usou fitas de embrulhos antigos, lenços vermelhos e flores secas. Colocou a lanterna no topo, como se fosse uma estrela. Os filhos ajudaram e, em pouco tempo, a pequena árvore estava diferente, mais alta aos olhos deles, mais viva.
E então, um a um, os animais aproximaram-se.
Um esquilo trouxe uma noz. Um pássaro deixou cair uma pena brilhante. Uma raposa largou um fio de lã colorida. Coelhos, cervos, pequenas criaturas da floresta ofereceram o que tinham, oferecendo o melhor de si.
A pequena árvore, que sonhara ser do Natal, tornou-se o Natal.
A família, aquecida pela união e pelo calor daquela noite, ficou ali a conversar, a rir baixinho, a esquecer por momentos as dificuldades do mundo lá fora.
A luz natalícia espalhou-se pela floresta. E não ficou confinada à clareira.
Pessoas das aldeias em redor começaram a surgir, atraídas pelo brilho de uma forma que não conseguiam explicar. Vizinhos, viajantes, famílias inteiras apareceram com a sensação de que era ali que tinham de estar. Trouxeram pão, canções e histórias. Alguns reconheceram-se. Outros conheceram-se ali e ficaram amigos para a vida.
A família perdida reencontrou os seus entes queridos. Abraçaram-se sob a árvore, com lágrimas nos olhos e sorrisos trémulos. Ninguém perguntou como era possível. Naquela noite, ninguém precisava de explicações. Havia uma compreensão silenciosa dentro do incompreensível.
Partilharam comida. Partilharam silêncio. Partilharam calor. Partilharam amor.
Os filhos estavam maravilhados. O menino, com os olhos cheios de encanto, perguntou à mãe se aquela árvore seria o símbolo do seu Natal.
— A árvore brilha como as estrelas no céu — disse ele, apontando para a lanterna. — É como se fosse magia.
A mãe sorriu e tocou-lhe na testa.
— Talvez seja, meu querido. Talvez nos esteja a lembrar que a magia do Natal mora nas pequenas coisas que fazemos uns pelos outros. Podíamos estar numa casa enorme, quente, mas não estaríamos tão felizes como estamos aqui neste momento, em que fomos salvos de uma desgraça e podemos comemorar este Natal com alegria e muito amor. E com a presença de todos. Porque isso é o mais importante. É estarmos presentes. E é fácil de nos esquecermos disso. Um dia hás de compreender, filhote.
O menino engoliu em seco, sério como só as crianças conseguem ser.
— Acho que percebo, mamã. O importante é estarmos juntos. Presentes.
— Presentes — repetiu ela, orgulhosa.
A cada gesto de carinho, a árvore parecia brilhar com mais força. Era como se tivesse encontrado o seu propósito: ser um farol de luz, de esperança e de união para quem se sentia perdido, fosse na floresta ou na vida.
Depois vieram as histórias. O pai, com a voz baixa e acolhedora, contou memórias da infância: a ansiedade boa de esperar o Natal, a família reunida para decorar a árvore, o avô a falar de tradições antigas, e a certeza de que cada árvore, grande ou pequena, tinha uma história única.
Os filhos ouviam atentos. A mãe, por momentos, deixou-se ficar em silêncio, a pensar que o mundo podia ser duro, mas o Natal tinha uma forma estranha de empurrar as pessoas de volta para o que importava. Naquela noite, a magia não estava só nos enfeites improvisados ou na lanterna a brilhar. Estava no facto de estarem juntos. Protegidos. Amparados pelo amor.
Os animais também pareciam sentir a tranquilidade daquele momento. Partilhavam uma harmonia inesperada, como se a presença serena da árvore tivesse o poder de acalmar qualquer coração.
A noite passou devagar. E, quando o sol começou a nascer, tingindo o céu de tons dourados e rosados, a família preparou-se para seguir caminho. A mãe olhou para a árvore uma última vez, com o coração apertado.
— É hora de partirmos — disse, acariciando o tronco com cuidado. — Mas nunca nos esqueceremos de ti.
Antes de partirem, tirou do bolso uma pequena estrela dourada, encontrada nas arrumações daquela manhã, e colocou-a no topo.
— Esta estrela é para ti. Para que nunca percas o teu brilho.
Foram-se embora, e a árvore ficou. Mas já não voltou a sentir-se pequena, nem triste, nem insignificante. Agora era a Árvore de Natal. E, todos os anos, os aldeões voltavam para a visitar: traziam enfeites, cantigas, pão quente, mãos dadas e amor.
Desde então, no coração da floresta, existia uma árvore que brilhava nas noites de inverno. Não com luzes elétricas, mas com algo mais raro. Havia quem dissesse que até parecia crescer um pouco a cada ano, estendendo os ramos como braços acolhedores. Os animais continuavam a trazer pequenos presentes e enfeites, como se soubessem que aquela árvore era agora parte vital da floresta.
E mesmo os viajantes que se perdiam, guiados pelo brilho suave, falavam da paz que sentiam ao aproximarem-se dela. A cada história contada, a lenda da árvore crescia. Já não era apenas uma árvore. Era uma lembrança de que, no meio da solidão, da tempestade e do frio, existia sempre uma luz, uma esperança. E era essa luz que unia todos, fosse na floresta, na cidade, ou em qualquer outro lugar.
Quem se perdia naquela floresta e encontrava a Árvore de Natal encontrava também um pouco de si. Encontrava rumo. Encontrava lembrança.
Porque aquela árvore aprendeu o que tantas pessoas levavam uma vida inteira a descobrir, e era isso que oferecia a quem a visitava:
O verdadeiro espírito do Natal não estava no tamanho da árvore, no tamanho da casa, nem na quantidade de prendas, mas na luz que se acendia e transbordava de amor quando alguém escolhia ficar.
E estar presente.

FIM.

Bruno M. Franco